BH sem água: da riqueza à escassez

No quarto conteúdo da série “As águas de Belo Horizonte”, vamos falar
da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas

Saiba como a mineração e o avanço imobiliário têm contribuído para colocar
o Rio das Velhas em situação crítica

Com 82 barragens no Alto Rio das Velhas, basta que uma delas se rompa para que 4.000.000
de pessoas passem a viver em clima de deserto

Chegamos ao quarto conteúdo da série especial “As águas de Belo Horizonte”. Nos três anteriores, vimos:

– quais são as regras para o uso comercial e de abastecimento humano da água (link);

– no caso da Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde está o coração (o Sinclinal Moeda) que bombeia água para as duas bacias hidrográficas que respondem por quase 100% de seu abastecimento: a do Rios das Velhas e a do Rio Paraopeba;

– mostramos ainda, que desde 2014, o Governo de Minas Gerais já sabia de um possível colapso hídrico na capital e no seu entorno. Obras para interligar os dois sistemas, de forma a garantir a estabilidade da captação mesmo com a vazão menor de um deles, foram feitas, mas a tragédia do rompimento do complexo de barragens da Vale, em Brumadinho, e a consequente contaminação do Paraopeba inutilizou a interligação (link). 

Se o Rio das Velhas já agonizava antes do rompimento da barragem, em janeiro deste ano, agora, sem a “muleta” do Paraopeba, contaminado por lama, a situação piorou. Com a longa estiagem e outros fatores diretamente ligados à sobrecarga de suas reservas, mostraremos como um dos maiores mananciais  de Minas Gerais, que é o principal afluente do Rio São Francisco, está próximo de entrar em colapso.

Nesse quarto conteúdo da série especial “Águas de Belo Horizonte” descreveremos como a situação chegou a esse ponto e que a escassez pode piorar ao ponto de deixar a vida na capital e municípios do entorno insustentável. A mineração e a ocupação imobiliária sobre áreas de recarga hídrica avançam, destruindo gradualmente os mananciais que ainda restam e podem deixar a região mais populosa de Minas Gerais, sem água potável para todos. 

A captação de água na Bacia do Velhas para a RMBH se divide em dois sistemas integrados (SINs): Bela Fama, em Nova Lima, para o qual a água é retirada diretamente do Rio das Velhas e Morro Redondo, que é alimentado por captações no lençol freático (subterrânea) ou próximas às nascentes dos mananciais de Fechos, Mutuca e Cercadinho.

SIN Bela Fama

É o maior deles, mas infelizmente, o que mais necessita de tratamento na água por parte da Copasa devido ao avançado grau de poluição das águas do Rio das Velhas. Representa 70% do abastecimento de Belo Horizonte, chegando a cerca 75 % em Nova Lima e 100% em Raposos (veja o quadro abaixo). 

SIN Morro Redondo

Apesar de responder por apenas 5% do abastecimento de BH e 11% de Nova Lima, esse sistema tem a maior qualidade de água, pois a sua captação se dá em três mananciais relativamente bem preservados: Fechos, Mutuca e Cercadinho.

Os três mananciais são abastecidos por áreas de recarga do Sinclinal Moeda, formação geológica que funciona como uma espécie de caixa d’água das bacias dos rios das Velhas e Paraopeba, responsáveis pelo abastecimento da Região Metropolitana de Belo Horizonte.

No conteúdo anterior dessa série especial, nós do Lei.A produzimos e lançamos o filme “Sinclinal Moeda: o coração das águas de BH está cansado”.

APA Sul: uma suposta proteção

Os quatro mananciais de captação que pertencem à Bacia do Rio das Velhas (Bela Fama, Fechos, Mutuca e Cercadinho) estão localizados em unidades de conservação do Vetor Sul de Belo Horizonte. A maior delas, a Área de Proteção Ambiental Sul Região Metropolitana de Belo Horizonte (APA Sul RMBH), abrange uma área de aproximadamente 170 mil hectares e seu objetivo ao ser criada foi “proteger e conservar os sistemas naturais essenciais à biodiversidade, especialmente os recursos hídricos necessários ao abastecimento da população da RMBH e áreas adjacentes”.

Porém, a APA Sul vem sofrendo há décadas, atualmente com maior rapidez, ataques e pressões que vêm provocado a morte de nascentes, a poluição de leitos de rios e córregos, a diminuição da vazão de mananciais, em detrimento de maiores cuidados, previstos em seu zoneamento ambiental, porém não respeitado nos processos de licenciamento.

#monitore

Agonizando, Rio das Velhas ainda convive com fantasmas

Risco de contaminação 

A sobrecarga na retirada de água do Rio das Velhas, combinada com o período de estiagem, faz também aumentar o seu risco de contaminação. A proliferação de aguapés em diferentes pontos são um dos indicadores da poluição que toma conta do seu leito. Em grande quantidade, essas algas ocasionam um efeito ‘tapete’ que culmina numa queda abrupta de oxigênio na água e na sua contaminação por cianobactérias (microrganismos que, quando ingeridos podem levar à proliferação de doenças). Os peixes são os primeiros a serem afetados e pode vir daí as mortandades que vêm sendo observadas na região. 

Crédito: CBH Rio das Velhas

Ainda que iniciativas como a do Projeto Manuelzão, juntamente com o trabalho do CBH Rio das Velhas venham trazendo importantes resultados, o Rio das Velhas é ainda impactado por uma grande quantidade de esgoto proveniente do Ribeirão Arrudas e o Ribeirão do Onça, que atravessam a capital. Isso faz com que praticamente não haja vida nas águas do rio ao longo do trecho que passa pela Região Metropolitana de BH. 

Mineração e ocupação urbana em áreas de recarga

Tratamos do assunto em matérias anteriores (link) (link), sobre projetos minerários que avançam sobre os aquíferos do Sinclinal Moeda. As empresas mineradoras vêm consumindo um grande volume de água, deste que é o principal reservatório de água subterrânea de todo o Quadrilátero Ferrífero. 

Além da mineração, outro problema é o adensamento da população nessa área de recarga. Um exemplo é um megaempreendimento imobiliário que já conseguiu a primeira licença ambiental para ser construído sobre a região do entorno da Serra da Moeda. O Centralidade Sul (CSul), como é chamado, terá população de mais de 110.000 pessoas, além de áreas industriais e comerciais. Saiba mais  (link)

 Barragens de rejeito no Alto Rio das Velhas

Nas áreas de recarga hídrica que alimentam o Alto Rio das Velhas também estão localizadas as maiores concentrações de minério de ferro.  Em decorrência disso, existem atualmente diversas operações minerárias na região que incluem a existência de 82 barragens de rejeito. Essas estruturas carregadas de lama ameaçam as águas, as unidades de conservação e a vida da população da RMBH. 

Como o sistema de captação do Rio Paraopeba está nulo depois do rompimento do complexo de barragens da Vale, em Brumadinho, hoje, basta que uma dessas outras barragens na bacia do Rio das Velhas se rompa para que Belo Horizonte fique sem água e se transforme num deserto.

Dentre as 82, dezesseis não têm estabilidade garantida pela Agência Nacional da Mineração. O pior, dois complexos delas atingiram o “nível 3” de emergência, ou seja, estão em estado crítico. São elas: Complexo de Forquilha I, II e III (Ouro Preto) e B3/B4 (Nova Lima). Além delas, Maravilhas II (Itabirito), sem estabilidade garantida, tem seis vezes mais lama do que o Complexo de Córrego do Feijão, em Brumadinho, que aniquilou a captação de água no Paraopeba. Todas elas possuem uma dona: a Vale. 

Fonte: Revista Manuelzão

Barragens à montante, por esse método mais barato para a mineradora e mais perigoso para o meio ambiente e para vida humana, foram construídos esses complexos de barragens em estado crítico na Bacia do Rio das Velhas. 

Desde o mês de fevereiro de 2019, barragens a montante estão proibidas de serem construídas. Leia o que publicamos recentemente sobre a Lei “Mar de Lama Nunca Mais”.

Além disso, uma resolução publicada pela Agência Nacional de Mineração (ANM), no dia 15 de fevereiro, determinou que todos os reservatórios de rejeito com essa característica deverão ser eliminados até 2021. 

Quanta água, Vale?

No dia 24 de outubro de 2019, a pedido do Ministério Público de Minas Gerais, a justiça determinou que a Vale apresente, em 15 dias, quanto de água retira do Velhas (devendo demonstrar se toda a água utilizada retorna ao curso do rio) e uma proposta para a preservá-lo, em virtude de sua alta captação nessa bacia hidrográfica.

Segundo a promotora Andressa Lanchotti, o Ministério Público verificou que havia inconsistência nos dados apresentados pela Vale. “Sem a captação no Rio Paraopeba, o sistema Rio das Velhas passou a ser mais demandado e temos de trabalhar para que não haja danos irreversíveis nesse rio”, disse.

#Aja

Você vai esperar o racionamento?

Como estamos mostrando ao longo dessa série, o colapso hídrico de Belo Horizonte e sua região metropolitana é real. O racionamento de água é iminente. Por outro lado, não se vê a população formando grandes grupos de pressão junto aos órgãos competentes e tampouco se unindo às instituições que historicamente lutam pela preservação dos mananciais, nossas fontes de vida.

Aja!

Se você faz parte do movimento ambiental, compartilhe a série especial do Lei.A, converse e mais do que isso: escute. Tente entender uma forma simples, didática e direta de introduzir o tema junto à família, aos colegas de trabalho ou ao ambiente escolar de seus filhos. Fale a língua do povo!

Se você se sensibilizou pelo tema e quer contribuir com quem luta por essa causa (que no fundo, é sua) participe e fortaleça entidades como os comitês de bacias hidrográficas. Mexa-se! Eles realizam diversas ações educativas e reuniões abertas. No caso da Bacia do Rio das Velhas, visite o site do CBH Velhas e veja como participar: http://cbhvelhas.org.br/

Seja vigilante! A situação diária do volume dos reservatórios da Região Metropolitana de BH pode ser consultada neste link

Se ainda está em dúvida se sua cidade faz parte desse problema, pesquise!  Descubra no mapa a qual bacia hidrográfica a sua região pertence: link

Mesmo que não seja afetado diretamente pelas questões da Bacia do Rio das Velhas, crie um movimento na sua cidade! Utilize a plataforma do Lei.A e saiba onde são os locais de captação de água de seu município: link

Fonte: Lei.A

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